Povos dominados do mundo, uni-vos!
06/09/2001
- Opinión
A revolta dos povos dominados -geral, permanente e implacável- contra a
globalização capitalista é absolutamente necessária. Mas ela não é
suficiente. É preciso organizá-la sob a forma de uma força política,
capaz de derrotar, no espaço de uma geração, o dominador onipotente.
Para tanto e antes de tudo devemos ter em mente as três grandes
indagações preliminares de toda luta política: Quem somos? O que
queremos? Contra quem lutamos?
Somos a maioria esmagadora e crescente da humanidade, à qual se nega,
sistematicamente, o direito de viver com a dignidade de seres humanos.
Ao contrário do que proclama a mentirosa propaganda capitalista, não
somos isolacionistas retrógrados nem anarquistas depredadores. Queremos
libertar os povos da condição degradante de massas consumíveis e
descartáveis, a serviço da acumulação do capital, para delas fazermos
povos livres, iguais e solidários, sempre mais fortes e ricos em sua
esplêndida diversidade.
Vamos à luta, sem tréguas, contra a globalização devastadora, montada
pelas forças capitalistas internacionais, inimigas da humanidade.
O combate decisivo será travado não por meios militares nem mesmo, como
vulgarmente se pensa, no campo econômico, mas no terreno das idéias, dos
valores e das justificações éticas. Dominador nenhum, em nenhum momento
da história, sobreviveu sem alimentar nos súditos o sentimento da
legitimidade do seu mando ou, pelo menos, da inutilidade da revolta. "O
forte", disse lucidamente Rousseau, "não é nunca bastante forte para
estar sempre no poder se não faz de sua força um direito e, da
obediência, um dever".
Vamos impedir que essa fraude ideológica se perpetue. Hoje, não podendo
mais esconder as devastações que a globalização capitalista vem
provocando no mundo inteiro, seus ideólogos já não ousam louvar o
sistema, mas limitam-se a concentrar suas baterias intelectuais contra os
adversários.
Toda a sua argumentação, que já trai um recuo sintomático em relação à
arrogância triunfalista inicial, é orquestrada em torno de três temas.
Primeiro tema: atacar a globalização capitalista é prejudicar os pobres.
É a tese lançada pela influente revista britânica "The Economist" e
repetida em uníssono pelos grandes atores políticos que exercem o poder
mundial, a começar pelo presidente dos EUA, George W. Bush, às vésperas
da conturbada reunião de Gênova.
A refutação dessa falsidade é simples. Funda-se nos fatos. Segundo o Pnud
(Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), de 1960 a 1997 a
proporção da diferença entre a renda média auferida pela quinta parte
mais rica e a auferida pela quinta parte mais pobre da humanidade mais do
que dobrou: era de 30 para 1 e passou a ser de 74 para 1.
Esse abismo entre ricos e pobres aprofunda-se rapidamente desde o final
dos anos 80, com o avanço da globalização. De 1990 a 1998, 50 países
conheceram uma redução do seu PIB per capita.
Registre-se que essa agravação da pobreza não se deu apenas na vasta área
subdesenvolvida do planeta. Nas duas últimas décadas do século 20, o grau
de desigualdade socioeconômica aumentou em 16% nos EUA, na Suécia e no
Reino Unido. Neste, pela primeira vez, após quase dois séculos e graças à
eficiência neoliberal, o número absoluto de miseráveis aumentou.
Segundo tema: os contestadores da globalização capitalista não possuem
legitimidade para falar em nome dos povos. Eles não têm mandato eletivo.
O argumento é cínico. Quem elegeu os líderes do G-7 como donos do mundo,
para decidir sobre a vida e a morte dos povos? O povo brasileiro
porventura autorizou seus governantes, todos eleitos desde o regime
militar, a colocar em prática uma política de deliberada eliminação dos
direitos econômicos e sociais, a começar pelo direito ao trabalho e à
previdência social?
Terceiro tema: não há alternativa à globalização capitalista. A essa
outra falsidade da propaganda neoliberal, centros de estudos do mundo
inteiro começam, hoje, a dar as competentes respostas. Entre nós, um
grupo de pesquisa que acaba de ser criado, no Instituto de Estudos
Avançados da USP, contribuirá para esse esforço comum com a apresentação
de propostas concretas, nos planos nacional e internacional, para que a
humanidade possa, enfim, livrar-se definitivamente do flagelo
capitalista.
O capitalismo globalizante venceu em quase todos os quadrantes do orbe
terrestre porque tinha poderio militar e econômico mais do que suficiente
para tanto. Venceu, mas não convenceu. E é isso que o levará à derrota
final, pois, para convencer, como lembrou Unamuno aos franquistas logo no
início da Guerra Civil Espanhola, é preciso ter a justiça e a razão do
seu lado. O que o capitalismo nunca teve e jamais terá.
A grande tarefa que incumbe agora a todos os educadores é fazer com que
os jovens do mundo inteiro não sejam cooptados pelas forças da morte; que
escolham o bom lado do combate e se engajem, de corpo e alma, na luta
universal em favor da vida.
* Fábio Konder Comparato, 64, jurista, doutor "honoris causa" da
Universidade de Coimbra, é professor titular da Faculdade de Direito da
USP.
https://www.alainet.org/es/node/105307
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