Cuba resiste, solidariamente
05/01/2004
- Opinión
A Revolução cubana completa, contra vento e maré, 45 anos, sobre uma
quádrupla ilha: a geográfica, a política (Cuba é o único país
socialista do Ocidente), a que decorre da exclusão da OEA e a
imposta pelo bloqueio americano. Em condições tão adversas, é
surpreendente que tenha resistido a dez presidentes dos EUA e a
vinte diretores da CIA, e ao efeito dominó causado pela queda do
Muro de Berlim. O motivo é o apoio popular à soberania encarnada na
figura carismática de Fidel.
Dos 11 milhões de habitantes, a minoria rica há tempos abandonou a
Ilha. A maioria sabe que, apesar das dificuldades, o país apresenta
índices sociais superiores aos das nações mais ricas do Continente.
Segundo a ONU (julho/2003), a esperança de vida em Cuba é de 76,5
anos, inferior apenas à da Costa Rica (77,9). É a nação mais
alfabetizada da América Latina: 96,8% dos adultos. Dispõe de um
médico para cada 400 habitantes. A mortalidade infantil atinge 7 em
cada mil nascidos vivos - o mesmo índice sueco. E todo o sistema de
educação e saúde é inteiramente gratuito.
Se Cuba é socialmente tão avançada, a ponto de merecer elogios de
João Paulo II quando a visitou, em 1998, por que há quem fuja do
país? O Brasil tem 3 milhões de cidadãos vivendo fora de suas
fronteiras. A diferença é que a economia cubana, socializada, não
admite turismo individual no exterior, leia-se, evasão de divisas
para satisfação própria. O que não impede que cubanos viajem mundo
afora, em missões científicas, artísticas, comerciais e
diplomáticas, em geral bancados pelo Estado. Hoje, há médicos e
professores cubanos em mais de 40 países do Terceiro Mundo,
inclusive no Brasil, trabalhando em áreas consideradas
"desprezíveis" por muitos profissionais formados no capitalismo.
Dos que se foram de Cuba, fascinados pelo "american way of life",
não conheço nenhum que esteja empenhado em melhorar as condições dos
pobres nos países que os acolheram. Pelo contrário, os cárceres dos
EUA estão repletos de cubanos evadidos.
Viver em Cuba exige altruísmo, como viver em comunidade ou, por
exemplo, num convento. O 'nosso' deixa pouco espaço para o 'meu".
Como o egoísmo é a nossa tendência negativa mais forte, não são
todos que suportam a idéia de que nunca poderão ficar ricos e
desfrutar das quimeras que o dinheiro promete.
Para quem é rico no Brasil, por exemplo, onde os 10% mais
privilegiados possuem 42% da renda nacional (e os 10% mais pobres
dividem entre si 0,9%), viver em Cuba é estar condenado ao inferno:
nada de carro do ano, férias no exterior, consumo supérfluo ou o
prazer de ingerir, em poucos minutos, uma bebida mais cara que o
valor do salário mensal do empregado que a serve.
Para quem é classe média, é padecer no purgatório: a burocracia, o
partido único, as dificuldades impostas pelo bloqueio. Mas para quem
está desempregado ou é assalariado, é conhecer o céu: em Cuba não há
desemprego, favelas e violência urbana. E todos têm assegurados os
três direitos básicos: alimentação, saúde e educação. Qual outro
país no Continente garante tais direitos humanos ao conjunto de sua
população?
Em 45 anos, a Revolução cometeu muitos erros, mas nenhum tão grave
para levá-la ao fracasso. Dizia-se que Cuba se mantinha graças à
União Soviética. Esta desapareceu e nem por isso a Revolução
submergiu. Incluo-me entre os que condenam os fuzilamentos que ali
ocorrem. Mas não ouço o coro de protestos lembrar que, enquanto
governador do Texas, Bush assinou 152 condenações à morte. Nenhum de
nós é capaz de imaginar uma base cubana encravada na Califórnia.
Porém, o senso comum parece admitir, sem indignação, que haja uma
base americana em Guantánamo, agora transformada em masmorra de
afegãos, supostos terroristas privados do mais elementar direito de
defesa.
Pode-se criticar Cuba em muitos aspectos, mas não há como exigir
distenção política enquanto a espada de Dâmocles do bloqueio
americano pesar sobre o seu pescoço. Se Cuba é tão horrível, por que
atrai mais turistas que o Brasil, e a Casa Branca não permite,
contrariando todas as leis internacionais, que a Ilha mantenha
relações diplomáticas e comerciais com o resto do mundo?
Com ou sem Fidel, Cuba terá de mudar, pois a história é implacável.
Espero, contudo, que o futuro do país não seja o presente do resto
da América Latina: democracias formais cercadas de miséria, drogas,
violência e desemprego por todos os lados. E que, no futuro,
permaneça, à saída do aeroporto José Martí, em Havana, este painel
de boas-vindas a quem chega ao país: "Esta noite, milhões de
crianças dormirão nas ruas do mundo. Nenhuma delas é cubana."
* Frei Betto é escritor, autor de "Gosto de Uva" (Garamond), entre
outros livros, e assessor especial do Presidente da República.
https://www.alainet.org/es/node/109034
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