Culturas e evangelização
28/05/2007
- Opinión
Se o evangelho é essencialmente Boa Notícia para todos que vêm a este mundo, não se pode esquecer que muitas vezes foi deturpado e manipulado erroneamente. Por isso foi recebido e interpretado como “má notícia” para indivíduos e mesmo para grupos inteiros. Um exemplo aconteceu na América Latina com as culturas indígenas, nativas da terra, criadoras e depositárias de ricas tradições, que até hoje marcam indelevelmente a identidade dos povos do lado de baixo do Equador.
Se provocou algum mal-estar a frase do Papa no discurso de abertura da V Conferência do CELAM em Aparecida, quando disse: “o anúncio de Jesus e de seu Evangelho não supôs em nenhum momento uma alienação das culturas pré-colombinas, nem foi uma imposição de uma cultura estrangeira”, foi confortador ouvi-lo na catequese da última quarta-feira ao fazer um balanço de sua visita ao Brasil. Bento XVI declarou: “Certamente, a lembrança de um passado glorioso não pode ignorar as sombras que acompanharam a obra de evangelização do continente latino-americano; não é possível esquecer os sofrimentos e as injustiças que os colonizadores causaram à população indígena, pisoteada com freqüência em seus direitos fundamentais.”
É bom que o pontífice tenha esta sensibilidade para reconhecer que a primeira evangelização, aliada ao projeto colonizador do continente, não foi respeitosa com as culturas autóctones Muitas vezes usou métodos violentos e mesmo criminosos. Não exageramos na linguagem. O próprio Bento XVI chama o “modus operandi” da colonização de “crimes injustificáveis”. Já seu predecessor, João Paulo II, em 1992, em Santo Domingo, pediu perdão aos descendentes de indígenas pelos crimes cometidos pelos conquistadores espanhóis, que aliaram a cruz à espada, semeando tortura e horror entre os nativos encontrados nas terras do Novo Mundo.
Porém, muito antes de João Paulo II e de Bento XVI, já dentro da própria Igreja, vozes se levantaram para denunciar a violação dos direitos das populações nativas, expondo-se a perseguições e sofrimentos por parte da própria Igreja e das coroas espanhola e portuguesa. Graças a Deus o Papa resgata esses fulgurantes testemunhos de Bartolomeu de Las Casas e Francisco de Vitória. Conforta o coração que nos recorde o profetismo e a santidade sempre presentes na Igreja mesmo em seus momentos mais sombrios.
Durante muito tempo se supervalorizou a cultura européia como sendo a matriz para todo o Ocidente. E o projeto colonial foi propagador desse modo de pensar e de atuar. Hoje percebe-se que as culturas autóctones também são fundamentais para se compreender a identidade de um povo, de uma região, de um continente. Assim acontece no rico caldo cultural latino-americano, que permite inclusive que o Evangelho se enculture, dialogando e comungando com valores e sistemas de representação que os povos nativos transmitem como belos tesouros.
Evangelizar é transmitir a Boa Notícia de Jesus sobretudo pelo testemunho, mas também pelo anúncio explícito. Em nenhum momento, a urgência de evangelizar pode implicar agredir ou violar direitos alheios ou impor a própria crença pela violência a outros.
Nesse sentido, Bento XVI lembra algo primordial aos bispos latino-americanos reunidos em Aparecida: toda evangelização é enculturada. E, portanto, nenhuma evangelização logrará seu objetivo de comunicar a Boa Notícia se não o fizer a partir das próprias culturas onde se insere.
Assim o fez Jesus de Nazaré, que atravessava cidades de samaritanos sem destruí-las, incluía em sua pregação mulheres sírio-fenícias e as privilegiava com luminosos sinais sem exigir-lhes abdicar de sua identidade cultural e religiosa. Assim foi com Paulo de Tarso, que descrevia seu ministério apostólico como um movimento no qual se fazia “judeu com os judeus, grego com os gregos, tudo para todos...” Las Casas e Francisco de Vitória demonstraram ser fiéis discípulos dessa escola. As últimas declarações de Bento XVI mostram à Igreja do continente reunida em Aparecida um caminho semelhante.
- Maria Clara Bingemer, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio, decana do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio, é autora de "A Argila e o espírito - ensaios sobre ética, mística e poética" (Ed. Garamond), entre outros livros.
Se provocou algum mal-estar a frase do Papa no discurso de abertura da V Conferência do CELAM em Aparecida, quando disse: “o anúncio de Jesus e de seu Evangelho não supôs em nenhum momento uma alienação das culturas pré-colombinas, nem foi uma imposição de uma cultura estrangeira”, foi confortador ouvi-lo na catequese da última quarta-feira ao fazer um balanço de sua visita ao Brasil. Bento XVI declarou: “Certamente, a lembrança de um passado glorioso não pode ignorar as sombras que acompanharam a obra de evangelização do continente latino-americano; não é possível esquecer os sofrimentos e as injustiças que os colonizadores causaram à população indígena, pisoteada com freqüência em seus direitos fundamentais.”
É bom que o pontífice tenha esta sensibilidade para reconhecer que a primeira evangelização, aliada ao projeto colonizador do continente, não foi respeitosa com as culturas autóctones Muitas vezes usou métodos violentos e mesmo criminosos. Não exageramos na linguagem. O próprio Bento XVI chama o “modus operandi” da colonização de “crimes injustificáveis”. Já seu predecessor, João Paulo II, em 1992, em Santo Domingo, pediu perdão aos descendentes de indígenas pelos crimes cometidos pelos conquistadores espanhóis, que aliaram a cruz à espada, semeando tortura e horror entre os nativos encontrados nas terras do Novo Mundo.
Porém, muito antes de João Paulo II e de Bento XVI, já dentro da própria Igreja, vozes se levantaram para denunciar a violação dos direitos das populações nativas, expondo-se a perseguições e sofrimentos por parte da própria Igreja e das coroas espanhola e portuguesa. Graças a Deus o Papa resgata esses fulgurantes testemunhos de Bartolomeu de Las Casas e Francisco de Vitória. Conforta o coração que nos recorde o profetismo e a santidade sempre presentes na Igreja mesmo em seus momentos mais sombrios.
Durante muito tempo se supervalorizou a cultura européia como sendo a matriz para todo o Ocidente. E o projeto colonial foi propagador desse modo de pensar e de atuar. Hoje percebe-se que as culturas autóctones também são fundamentais para se compreender a identidade de um povo, de uma região, de um continente. Assim acontece no rico caldo cultural latino-americano, que permite inclusive que o Evangelho se enculture, dialogando e comungando com valores e sistemas de representação que os povos nativos transmitem como belos tesouros.
Evangelizar é transmitir a Boa Notícia de Jesus sobretudo pelo testemunho, mas também pelo anúncio explícito. Em nenhum momento, a urgência de evangelizar pode implicar agredir ou violar direitos alheios ou impor a própria crença pela violência a outros.
Nesse sentido, Bento XVI lembra algo primordial aos bispos latino-americanos reunidos em Aparecida: toda evangelização é enculturada. E, portanto, nenhuma evangelização logrará seu objetivo de comunicar a Boa Notícia se não o fizer a partir das próprias culturas onde se insere.
Assim o fez Jesus de Nazaré, que atravessava cidades de samaritanos sem destruí-las, incluía em sua pregação mulheres sírio-fenícias e as privilegiava com luminosos sinais sem exigir-lhes abdicar de sua identidade cultural e religiosa. Assim foi com Paulo de Tarso, que descrevia seu ministério apostólico como um movimento no qual se fazia “judeu com os judeus, grego com os gregos, tudo para todos...” Las Casas e Francisco de Vitória demonstraram ser fiéis discípulos dessa escola. As últimas declarações de Bento XVI mostram à Igreja do continente reunida em Aparecida um caminho semelhante.
- Maria Clara Bingemer, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio, decana do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio, é autora de "A Argila e o espírito - ensaios sobre ética, mística e poética" (Ed. Garamond), entre outros livros.
https://www.alainet.org/es/node/121409?language=es
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