FSM 2004.
Quinto poder: de voz em punho
18/01/2004
- Opinión
"Minha voz tem que ser forte como minha espada". Com esta frase o
jornalista indiano Nikhil Wagle justificou o tom em que fazia sua
palestra, na conferência "Meios de Comunicação, Cultura e Saber",
realizada nesta manhã de domingo. Nikhil é ativista político e
editor do Mahanagar, um jornal progressista publicado em Hindi e
Marathi (duas das muitas línguas faladas na Índia). Wagle foi
apresentado pelo moderador da mesa - N. Ram, editor do The Hindu,
outro jornal indiano - como uma figura heróica no jornalismo em seu
país, por conta de suas críticas corajosas a algumas tradições
indianas e à política local.
Nikhil não apenas falou alto, mas falou em sua própria língua. "Sou
contra o imperialismo linguístico. Se no Fórum Social Mundial não
posso falar em minha própria língua, isso é terrível. Falar sua
própria língua é um direito fundamental. O imperialismo linguístico
ameaça a liberdade cultural". A questão lingüística também esteve
presente em outros discursos e foi motivo de expectativa, suspensão
dos trabalhos, confusão: o sistema de som nas cabines de tradução
não funcionava para todas as línguas, o que ocasionou algumas pausas
nas apresentações. Apesar dos percalços, houve avanços: afinal,
ontem não havia tradução para nenhuma língua e quem não sabe inglês
enfrentou dificuldades, certamente.
Wagle continuou evocando a memória de Gandhi - para ele, um grande
jornalista - e afirmou a necessidade de que os meios de comunicação
tenham um claro compromisso social, que é vinculado à garantia das
liberdades individuais. Para Nikhil, nos últimos tempos "o
jornalismo se desvinculou de seu compromisso social - na era da
globalização, a mídia é amiga do sistema dominante, incita o
consumismo". A saída, afirma, são os meios alternativos: "Temos que
desenvolver a imprensa alternativa, mas ela tem que falar a língua
do povo, e não se submeter ao imperialismo".
A responsabilidade dos meios de comunicação e o papel da mídia
alternativa também foram temas para Bernard Cassen, diretor da
Organização ATTAC e do jornal francês Le Monde Diplomatique. Cassen
abriu sua fala afirmando a necessidade de um contrapoder cidadão -
que faça frente ao poder do sistema midiático.
O jornalista francês lembrou que, historicamente, a mídia se
apresentou como um contrapoder - o quarto poder, em relação aos três
poderes tradicionais do Estado (Executivo, Legislativo e
Judiciário). Entretanto, nos últimos 25 anos, o sistema midiático se
rendeu ao sistema econômico, às grandes corporações. "O sistema
midiático se uniu aos novos donos do mundo, às instituições
multilaterais e suas sucursais regionais. Rádio, TV, imprensa
escrita e, mais recentemente, a Internet se reagrupam para
constituir grupos midiáticos de abrangência mundial - são entidades
planetárias, globais. A tendência é que esse processo de fusões e
aquisições cresça mais e mais e que o sistema midiático continue a
ser ator de propagação da ideologia dominante".
Frente de luta
Cassen toca num ponto fundamental quando afirma que o tema da
Comunicação deve ser apropriado pelos movimentos sociais.
"Precisamos entender como podemos nos defender, ante isso tudo.
Precisamos elaborar alternativas a este sistema e essa deve ser uma
frente de luta prioritária para os movimentos sociais". Ele defende
a criação do quinto poder - este sim, um contrapoder para se opor à
coalizão do sistema dominante. "Este deve ser um poder de denúncia e
crítica aos grandes grupos midiáticos. Um instrumento de defesa do
cidadão. A mídia tradicional usa artilharia pesada", afirmou -
citando como exemplo o caso da Venezuela, quando as empresas de
comunicação "mentiram e manipularam para desestabilizar um governo
legítimo e democrático. Foi uma guerra suja."
Bernard Cassen alertou para que não se faça confusão entre a crítica
ao sistema midiático e os jornalistas. "Estamos criticando o
comportamento de multinacionais e não os trabalhadores - afinal,
nossa luta é a mesma. Necessitamos deste quinto poder. Os
profissionais de mídia e seus sindicatos devem lutar lado a lado com
os cidadãos, porque a liberdade de expressão é interesse de todos -
não só dos jornalistas".
Liberdade também é a palavra de ordem para Richard Stallman,
fundador da Free Software Foundation, cuja fala seguiu-se à de
Cassen. O americano começou explicando que a expressão "Free
Software" diz respeito à liberdade, não ao preço - para evitar a
confusão dos tradutores, principalmente (em inglês, free pode
significar livre ou grátis, dependendo do contexto).
Stallmann explicou seu maior objetivo, ao criar o sistema GNU, há 20
anos: "substituir todos os softwares proprietários do mundo por
softwares que permitam a colaboração, que ofereçam a liberdade para
compartilhá-lo, estudá-lo, modificá-lo e distribuí-lo" e fez uma
analogia entre o software livre e uma receita culinária - "os
cozinheiros experimentam, mudam e trocam receitas. Imagine se ao
mudar um ingrediente de uma receita você fosse chamado de pirata e
colocado na prisão".
Além do software livre, Stallman defende que deve haver na Internet
dicionários em todas as línguas, enciclopédias e livros didáticos
que possam ser construídos colaborativamente, atualizados por
milhares de contribuições e de livre acesso. O mesmo se aplica ao
intercâmbio de artigos, livros e músicas - "isso deve ser livre e
deve ser legal. Quem chama isso de pirataria colocou a moralidade de
cabeça para baixo. Jamais devemos tolerar a idéia de que fazer este
intercâmbio é errado".
O ativista e intelectual cubano Fernando Martinez Heredía fez uma
avaliação retrospectiva do processo de colonizações ao longo do
século 20, das revoluções contra o imperialismo e o capitalismo, dos
colapsos dos regimes da Europa Oriental, para chegar ao momento
atual, afirmando que a estratégia de dominação se reorganizou e que
vivemos uma modernização do colonialismo. Para ele, vivemos uma
"gigantesca operação de prevenção de rebeldias e manutenção do
controle. Está em marcha uma nova forma de dominação do mundo que
usa cada vez mais poderosos instrumentos para controlar a opinião
pública e a informação que as pessoas consomem" - afirma.
Para Heredía, a grande mídia oferece canais e conteúdos controlados,
trivializa eventos importantes, não divulga informações adequadas
sobre questões como transgênicos, propriedade de patentes de
medicamentos, enfim, "não devemos saber da verdade. A democratização
do conhecimento é uma mentira".
O intelectual cubano também toca no tema da linguagem, que afirma
estar "no centro da guerra cultural, por ser a linguagem o que nos
permite pensar e sentir com independência. Há um domínio
transnacional sobre as consciências e os sentimentos das pessoas. É
preciso libertar a linguagem e o pensamento, desenvolvendo meios
alternativos, empreender um longo caminho original e criativo e
reunir as pessoas que não estão a serviço da dominação. Temos que
aprender a nos apreciar, uns aos outros, como somos e aprender a
lutar juntos".
O poeta hindu Namvar Singh fez uma intervenção falando sobre os
fracassos que a história conta, daqueles que tentaram criar um mundo
único. "A palavra mundo deveria ser plural em todas as línguas".
Singh também tocou na questão da língua, quando disse que "hoje
parecemos cópias uns dos outros. Estamos nos uniformizando em todas
as culturas e sistemas. O mundo todo vai usar a mesma língua? Isso é
uma tirania, cada língua traz em seu corpo uma cultura que precisa
ser defendida." E finalizou: "estamos aqui porque muitos outros
mundos são possíveis".
Quem encerrou a conferência foi Aminata Traore, ex-ministra da
cultura do Mali. A africana lembrou ao público presente que "a idéia
que cada um faz de si mesmo, de sua cultura, é muito importante,
quando é preciso resistir. O poder colonialista nos educa para
fazer-nos aceitar suas verdades. A dominação cultural leva à
dominação econômica".
Aminata denunciou a estratégia de imposição de modelos para
estimular o consumo - "quando pensamos que somos inferiores,
passamos a querer ser como os outros. E para isso, compramos o que
eles vendem - bens, serviços, idéias". Ela mostrou, de forma
contundente, que pobreza não é só falta de casa, água, comida:
"pobreza também é a incapacidade de termos uma imagem clara de nós
mesmos. E nos dizem que não somos nada se não somos como eles..."
A ex-ministra terminou sua palestra reafirmando o que chamou de
africalidade. "Sou negra, sou uma mulher negra. Eu sei disso, e
quero lembrar que a África contribuiu para criar a riqueza do Norte.
Hoje, pagamos um alto preço e o sistema neoliberal racista não nos
dará oportunidades. Outra África é necessária e possível".
http://fsm2004.rits.org.br/conteudo.asp?conteudo_id=63
https://www.alainet.org/pt/articulo/109158
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